A Deusa Tríplice como arquétipo



Qual foi a última vez que você viu a lua?


A lua é objeto de fascínio de toda a humanidade e não por acaso, ela é associada à Deusa.

Durante muito tempo nós honrávamos uma única Deusa e assim como a lua, ela era adorada em suas três fases, Donzela. mãe e anciã.


No livro A Deusa Tríplice, em busca do feminino arquetípico, Adam Mc Learn nos conta um pouco sobre o Arquétipo da Deusa tríplice, sua publicação original foi em 1989, mas foi relançado recentemente e ainda bem, pois é um livro que merece ser lido e estudado.


A Deusa e o Patriarcado

A Deusa é parte essencial da humanidade, ela está presente desde os primórdios, em desenhos rupestres e esculturas primitivas. Ela faz parte do nosso ser e mesmo com as tentativas do patriarcado de matá-la, ela se manifesta em todas culturas sob diversos disfarces, como Maria, mãe de Jesus no Cristianismo.


Este patriarcado que estratificou as pessoas, que explora e desperdiça os recursos limitados da terra, que originou guerras, gerou um desequilíbrio. É preciso reconhecer que temos polaridades, todos nós somos masculino e feminino.


(…)”essas polaridades são parte essencial da arquitetura da alma humana.
O mais importante a perceber é a natureza complementar dessas polaridades, o fato de cada polo se confundir com o outro e voltar a se distinguir dele. As polaridades dependem umas das outras; de suas relações e dos seus encontros vem a energia dinâmica da psique, o mercúrio interior da substância anímica que se plena de luz e de move constantemente de um polo para o outro - e que, em seu eterno movimento, descobre e explora criativamente. Sem essa polaridade, nossa vida interior murcharia, seria uma mera flor seca, num reino fossilizado.”

O patriarcado começou a negar a polaridade feminina, criando aos poucos a ideia que um lado é bom e o outro é ruim, sendo que, na verdade elas são complementares. A negação de um dos lados traz desequilíbrio, o que assistimos no mundo hoje é a consequência de aproximadamente 5mil anos de desequilíbrio.


Hoje ressurge um movimento de retorno à Deusa. Mesmo sabendo que ela nunca nos abandonou de fato e este movimento desperta a nossa curiosidade e nosso desejo de conhecer mais sobre ela.



Durante o livro, o autor mostra que a deusa tríplice se manifesta em diversas culturas, apesar de focar nos mitos gregos, é possível encontrar a deusa em outras culturas. Uma ótima forma de (re)conhecer a Deusa.


Deméter, Perséfone e Hécate

Uma das histórias mais conhecidas da mitologia Grega é o mito de Deméter e como surgiram as 4 estações.


Antes do Patriarcado, Deméter era (...) “ “DeMeter", isto é, a Mãe Terra que se manifesta no crescimento da vegetação no ciclo das estações. Ligava-se em especial com os grãos, como a deusa do milho.” Ela era representada em suas três fases, como donzela, mãe e anciã.

Com a fragmentação da Deusa, a fim de enfraquecê-la, surgiram Perséfone e Hécate. Ficando assim Pérséfone como a face Donzela, representando a energia da semente e fazendo a ponte entre Deméter e a natureza acima do solo e Hécate com seu aspecto telúrico, responsável pelas energias abaixo da terra que fazem as plantas crescerem.


Ao analisar o mito sob este ponto de vista, a gente consegue perceber a importância do nosso lado “luz” e nosso lado “sombra”, do consciente e inconsciente, mundo superior e inferior.


Para a árvore crescer frondosa é necessário a luz e o calor que estão acima do solo, mas se for plantada em terra sem energia, suas raízes não podem crescer e a planta não se sustentará.

Hécate é então, a guardiã do nosso inconsciente.


Al-Lat, Al-Uzza e Menat

Antes do austero sistema patriarcal do Islã, os árabes adoravam essa trindade de Deusas do deserto, sendo elas facetas de uma só deusa:


Al-Uzza ("a poderosa") era o aspecto virgem da deusa, guerreira e vinculada à estrela da manhã.

Al-Lat, cujo nome significa apenas "deusa", era a faceta Mãe, ligada à Terra e a seus frutos, regendo a fecundidade.

Menat, a face anciã, regia o destino e a morte.


As três Deusas eram adoradas através de pedras enormes. Maomé, tendo dificuldade em destruir o culto às deusas, substituiu (como a igreja católica fez com os festivais pagãos) este costume ritual por um rito da sua própria religiāo. Ele instituiu o culto da Pedra Sagrada do Islã, a Kaaba, em Meca.


As três Marias

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Pensar em deusa tríplice no cristianismo é quase impossível, mas como eu disse na abertura deste artigo, a humanidade sempre encontrou uma forma de trazer a Deusa para suas tradições. Nos primórdios do cristianismo, o movimento era mais aberto ao feminino e existem representações das três Marias desta época: Maria a Virgem (Mãe de Jesus), Maria de Cléofas (Tia de Jesus) e Maria Madalena (Seguidora mais dedicada de Jesus).


Com o tempo, os sacerdotes elaborou o mito de Maria, tornando-a um arquétipo da perfeição da mulher sendo impossível de ser alcançado por mulheres comuns.


Outras representações da Deusa Tríplice


Muitos mitos em torno da Deusa Tríplice são descritos no livro, aqui eu escolhi três que despertaram a minha atenção, no entanto é válido citar alguns outros para que você possa explorar e encontrar qual mito é para você o mais interessante.


  • Nas lendas Arturianas encontramos o arquétipo tríplice representado por Morgana, Guinevere e a Senhora do Lago.




  • Nas lendas celtas da tradição galesa, há algumas deusas que podem ser consideradas membros de trindades. Por exemplo, há a tríade de Arionrod, Rianon e Blodeuwed.





  • No panteão egípcio, Isis era vista como Irmã, Esposa e Viúva de Osíris, o que dar a ela o caráter tríplice.


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  • Na mitologia nórdica, Três Nornas se representavam a deusa tríplice do destino. Eram chamadas, nas lendas, de Urd (o Passado), Verdandi (o Presente) e Skuld (o Futuro). Eram três tecelās que ficavam sentadas do Poço de Urd, situado numa das raízes da Árvore do Mundo, Yggdrasil, e cuidavam do destino dos deuses e dos humanos sem distinção.




No fim do livro, o autor nos ensina a usar cada um dos vários arquétipos trabalhado para ajudar o nosso relacionamento com nossos componentes femininos, o que Adam chama de Casamento Alquímico interior.


Ele ressalta que tanto a mulher quanto o homem possuem o aspecto tríplice, feminino e masculino:


“Uma compreensão consciente da deusa na sua inteireza é um importante instrumento psíquico interior que a mulher pode usar para ter a experiência das energias que fluem na sua alma. Muitas mulheres, inconscientes dos elementos estruturais de sua psique, estão à mercê de toda faceta da deusa que esteja ativa no seu interior. Com frequência, essas identificações arquetípicas são produzidas por forças exteriores a elas, por pressão da sociedade e dos "papéis" tradicionais. Todas essas pressões procuram moldar as mulheres e levá-las a se conformar, em diferentes momentos da vida, com certos arquétipos. Por isso, deve ter grande importância; para mulher que deseje ter algum controle sobre a sua própria vida interior e, em consequência, sobre a sua expressão exterior sociedade, a compreensão do poder e da arquitetura e potencialidade na da deusa tríplice que nela habita”


Também os homens têm uma faceta tríplice, temos o Homem como Guerreiro, o jovem cavaleiro que corresponde ao aspecto de Donzela da deusa. Depois, podemos reconhecer o Homem como Marido, aspecto maternal da deusa. E a terceira faceta é o Homem como Criador, o homem no papel de artista, de músico, de poeta, de escultor ou escritor,que corresponde a faceta de Anciā ou de sábia da deusa. Assim sendo, os homens trazem em si um aspecto tríplice com o qual têm de se identificar.


“Muitos homens têm grande dificuldade interior em estar à altura das implicações do trabalho com um com essas forças interiores e unir as polaridades numa fusão alquímica interior dinâmico dos opostos -, a alma individual poderá tornar-se verdadeiramente humana e abranger, de modo equilibrado, as forças masculinas e femininas nela contidas.”


Acredito que, para abandonarmos de vez as tradições patriarcais, a tarefa mais importante para a humanidade é equilibrar estas facetas, desenvolvendo nosso interior, poderemos nos afirmar como seres humanos plenos e manteremos ao nosso alcance a nossa essência e o nosso potencial espiritual.


por Thalita Ferreira

@Divinaancestral


Escrito em Litha, Lua Nova, Porto (Portugal)


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